Leio nos jornais e revistas os "conselhos" de estilistas e todo esse povo que dita o que deve e o que não deve ser usado, o que fica bem ou não para esse ou aquele perfil. Não são poucos os que afirmam várias coisas sobre o que NÃO PODE usar a mulher de mais de 40 anos... não pode usar minisaia, pois "a pele da coxa cai por cima do joelho e não fica bonito", não pode usar cabelos compridos pois parece "complexo de mulher que quer parecer mais jovem", não pode isso, não pode aquilo. Então, sentir a pele livre do tecido, usar a roupa que tem vontade, na hora que bem entende, não pode por que o corpo não é mais tão jovem, duro, liso??? É preciso esconder as marcas do tempo? Esticar as rugas, preencher os sulcos, botox, retoque, silicone... tudo para "ficar bem". Já ouvi até, de uma pessoa que respeito e admiro, que "plástica é higiênico". Velhice é sujeira?
E é por isso tudo que a mulher sofre, vive a passagem do tempo com tanto peso e fardo, murcha ao não se reconhecer mais com o rosto dos 20, 30.
Saúde é fundamental, bem estar também, mas a velhice, o envelhecimento e tudo que ele traz faz parte da vida, do fluxo e ter medo dele é sofrer.
Afonso Romano Sant'Anna nos brinda com sua "Mulher madura":
A Mulher Madura - Affonso Romano de Sant'Anna
O rosto da mulher madura entrou na moldura de meus olhos.
De repente, a surpreendo num banco olhando de soslaio, aguardando sua vez no balcão. Outras vezes ela passa por mim na rua entre os camelôs. Vezes outras a entrevejo no espelho de uma joalheria. A mulher madura com seu rosto denso esculpido como o de uma atriz grega, tem qualquer coisa de Melina Mercouri ou de Anouke Aimé.
Há uma serenidade nos seus gestos, longe dos desperdícios da adolescência, quando se esbanjam pernas, braços e bocas ruidosamente.
A adolescente não sabe ainda os limites de seu corpo e vai florescendo estabanada. E como um nadador principiante, faz muito barulho, joga muita água para os lados. Enfim, desborda.
A mulher madura nada no tempo e flui com a serenidade de um peixe. O silêncio em torno de seus gestos tem algo do repouso da garça sobre o lago. Seu olhar sobre os objetos não é de gula ou de concupiscência.
Seus olhos não violam as coisas, mas as envolvem ternamente.
Sabem a distância entre seu corpo e o mundo.
A mulher madura é assim: tem algo de orquídea que brota exclusiva de um tronco, inteira. Não é um canteiro de margaridas jovens tagarelando nas manhãs.
A adolescente, com o brilho de seus cabelos, com essa irradiação que sai dos dentes e dos olhos, nos extasia. Mas a mulher madura tem um som de adágio em suas formas. E até no gozo ela soa com a profundidade de um violoncelo e a sutileza de um oboé sobre a campina do leito.
A boca da mulher madura tem uma indizível sabedoria. Ela chorou na madrugada e abriu-se em opaco espanto. Ela conheceu a traição e ela mesma saiu sozinha para se deixar invadir pela dimensão de outros corpos. Por isto as suas mãos são líricas no drama e repõem no seu corpo um aprendizado da macia paina de setembro e abril.
O corpo da mulher madura é um corpo que já tem história. Inscrições se fizeram em sua superfície.
Seu corpo não é como na adolescência uma pura e agreste possibilidade.
Ela conhece seus mecanismos, apalpa suas mensagens, decodifica as ameaças numa intimidade respeitosa.
Sei que falo de uma certa mulher madura localizada numa classe social, e os mais politizados têm que ter condescendência e me entender. A maturidade também vem à mulher pobre, mas vem com tal violência que o verde se perverte e sobre os casebres e corpos tudo se reveste de uma marrom tristeza.
Na verdade, talvez a mulher madura não se saiba assim inteira ante seu olho interior. Talvez a sua aura se inscreva melhor no olho exterior, que a maturidade é também algo que o outro nos confere, complementarmente. Maturidade é essa coisa dupla: um jogo de espelhos revelador.
Cada idade tem seu esplendor. É um equívoco pensá-lo apenas como um relâmpago de juventude, um brilho de raquetes e pernas sobre as praias do tempo. Cada idade tem seu brilho e é preciso que cada um descubra o fulgor do próprio corpo.
A mulher madura está pronta para algo definitivo. Merece, por exemplo,
sentar-se naquela praça de Siena à tarde acompanhando com o complacente olhar o vôo das andorinhas e as crianças a brincar. A mulher madura tem esse ar de que, enfim, está pronta para ir à Grécia. Descolou-se da superfície das coisas. Merece profundidades. Por isto, pode-se dizer que a mulher madura não ostenta jóias. As jóias brotaram de seu tronco, incorporaram-se naturalmente ao seu rosto, como se fossem prendas do tempo.
A mulher madura é um ser luminoso e repousante às quatro horas da tarde, quando as sereias se banham e saem discretamente perfumadas com seus filhos pelos parques do dia. Pena que seu marido não note, perdido que está nos escritórios e mesquinhas ações nos múltiplos mercados dos gestos. Ele não sabe, mas deveria voltar para casa tão maduro quanto Yves Montand e Paul Newman, quando nos seus filmes. Sobretudo, o primeiro namorado ou o primeiro marido não sabem o que perderam em não esperá-la madurar. Ali está uma mulher madura, mais que nunca pronta para quem a souber amar.
Assino embaixo do seu texto, Drika. Antes de tudo, bom senso.
ResponderExcluirAbraço.
Olá, Adrianne. Você tem toda razão. E o Affonso também...
ResponderExcluirBeijos
Que bonito, bonita!
ResponderExcluiraiai... eu ainda me vejo entre essas duas: a adolescente e a madura. Será que essa coisa só passa aos 40!? rsrs
Este post tem tudo a ver com o que penso ultimamente....To lendo um livro ótimo que está me estimulando neste sentido, A IDADE DOS MILAGRES..
ResponderExcluirQuem disse que "plástica é higiênico" foi a Dercy Gonçalves! Ela fazia plástica de 10 em 10 anos, e certa vez disse isto para justificá-las. (É, antigamente quem fazia uma plástica a cada 10 anos tinha que justificar...)
ResponderExcluirNelson Rodrigues disse que "a Juventude é uma doença que o Tempo cura".
Quanto a "poder" ou "não poder" fazer coisas em função da idade, prefiro a frase imortal de Raul Seixas: "faça o que tu queres, há de ser tudo da Lei"...
Pessoalmente acho cabelos longos uma coisa extremamente feminina, bonita e atraente, e quem disse que a idade limita o comprimento dos cabelos é um rematado Idiota!
Quem muito bem escreveu sobre as Mulheres além da adolescência foi o Balzac, um assumido apreciador (mas quem não é?). Vale ler o que ele "postou": que as Mulheres mais velhas sabem se vestir onde as mocinhas se enfeitam, sabem se perfumar onde as meninas se borrifam, sabem conversar onde as meninotas se deslumbram, sabem gemer onde as novinhas dão gritinhos"...