segunda-feira, 11 de outubro de 2010

A paixão pelos livros

"A vida está pulsando ali. O livro faz parte
da casa, da comida, da experiência, da
maternidade, do cotidiano" (Adélia Padro)

"Onde se queimam livros cedo ou tarde se
queimam homens" (Heinrich Heine)

Estou finalizando a leitura do livro "A paixão pelos livros". Trata-se de uma coletânea de frases, contos, relatos pessoais sobre, oras, a paixão pelos livros (rs). Foi organizado por Julio Siveira e Martha Ribas e editado em 2004 pela Casa da Palavra. Alguns textos são preciosos, como "Bibliomania" de Gustave Flaubert contando a história de Giácomo, o livreiro. Mais do que vender (motivação mais óbvia para um dono de livraria), Giácomo vivia para colecionar a comprar livros raros e curiosos, os quais zelava intensamente. Outro de que gostei bastante, esse um relato e não um conto, foi o de Varlam Chalámov, um dos grandes nomes da literatura russa  de quem eu nunca tinha ouvido falar. Nesse relato ele fala de sua experiência nos campos de concentração soviéticos do início do século XX e a presença (e ausência) da literatura. Me tocou em especial o momento em que ele, que costumava ser um leitor voraz, em função da precariedade das suas condições de vida, perde a emoção pela leitura. Lembro sempre de uma amiga, educadora competente, que dizia algo como: "crianças precisam de comida, casa e amor". Comida como substrato que nos mantem vivos no sentido mais amplo do termo. Não só respirando, mas com alguma condição de sonho.

Pois bem. O livro é todo assim, cheio de pequenas pérolas. Pesquisando um pouco, achei um blog que me trouxe informações sobre Chamalóv, destaquei essas:


"(...)Os seus “Contos de Kolima”, publicados pela primeira vez no estrangeiro nos anos 80 do séc. XX, são, sem dúvida, o testemunho mais verdadeiro e, por isso, mais cruel do GULAG, sistema de campos de concentração na União Soviética onde morreram milhões de pessoas. Cada um dos pequenos relatos constitui uma crónica da degradação e da desumanização da vida nos campos de concentração estalinistas".

http://darussia.blogspot.com/2007/07/recordando-varlam-chalamov-shalamov.html

Encontrei também o livro inteiro na internet (A paixão pelos livros). Para quem não se importa de ler no computador...:http://www.casadapalavra.com.br/_img/arquivos/16/1.pdf?PHPSESSID=712dbd086133f6066494ba4fdfbc70ea

O livro me fez pensar, de novo e de novo, na minha relação com os livros. Acho bacana as pessoas que afirmam não ter nenhuma relação de possessividade com seus livros, emprestando sem se preocupar em ter de volta, pois para elas, o livro deve circular. Acho bacana de verdade, não sou muito chegada a ironias. Mas comigo não é assim. Empresto. Tenho prazer que pessoas que gosto possam conhecer um livro que gostei especialmente. Empresto para alguns alunos em função de suas necessidades acadêmicas, sempre com a frase: "Não esqueçam, filho único de mãe solteira". Mas gosto muito de tê-los (os livros) por perto. Gosto de ir compondo uma história com eles, de reler uns e outros, da capa, de colocar meu nome na primeira folha, de fazer comentários nas laterais. Gosto que eles me pertençam um pouco. Minha estante (essa ai de baixo) é permanentemente arrumada e, permanentemente desarrumada. Os bichos são vivos, penso em um que quero comentar na aula, cadê ele? aqui. Põe na bolsa. Quero lembrar de um trecho para escrever um artigo? está na segunda prateleira, pega ele, aonde era? Ah, não era esse, era aquele outro. E pronto, a bagunça boa (boa porque é movimento, é diálogo, é memória, é criação) vai se formando.
 
 

 
Ah... e Chamalóv finaliza seu relato com a frase: "Eu lamento nunca ter tido minha própria biblioteca.

4 comentários:

  1. Oi, Drika

    Livro meu também é "filho único de pai solteiro" (hehehe). Vários livros que gosto não estão mais comigo porque gostaram tanto que não me devolveram...lamentável. Estou montando minha biblioteca aos poucos.

    Não gosto de riscar nos livros ou fazer anotações na beira da página, mas gosto demais de colocar meu nome na primeira página. Tenho outra coisa em comum contigo, também releio vários livros. Ainda ontem reli "Comédias para se ler na Escola" (Luis Fernando Verissimo) e lembrei de ti ao ler a crônica "Fobias". Lembro que comentou sobre ela num texto seu.

    Bom chegar aqui no seu cantinho e ver nos seus textos e nos comentários que não estou sozinho nessa paixão pelos livros.

    Obrigado por disponibilizar o link do livro.

    Abraços

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  2. Pérola Adrianne, é também estar aqui e poder ler tanta paixão e sensibilidade à vista, vínculos impregnados por livros, leituras, interlocutores e releituras, trechos significativos, palavras-chaves que nos fazem folhear livros em busca de reescritas em nossas pautas, em nossas telas, em nossas falas, em nosso estar com alunos e companheiros de aprendizagens. Ciúmes pelo que gostamos é natural, assim como desprendimentos pela matéria, vamos emprestar para ver como a leitura toca no outro e o que ele nos trará de novo. O livro quer amamos muitas das vezes não retorna às nossas mãos, porque adoramos compartilhar, e o outro não percebe isso. Nessa história muitos ficaram com meus alunos e outros tantos com meus colegas professores. Sofro um pouco. Único consolo é que talvez tenha sido lido!
    Boas associações, recriações, vertentes...
    Tudo isso vem do sentimento de Chamalóv misturado com Flaubert?

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  3. Querida Drika, talvez sem querer, vc está promovendo o livro eletrônico - ao sugerir a leitura pela internet. Né?

    Muito legal o post, eu não conhecia este livro da Casa da Palavra. Vou dar uma olhada. Beijos, obrigada!

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  4. Oi, Dri!

    Sabe que eu era bem desapegada aos livros? Adorava emprestá-los e não me importava tanto em não tê-los de volta, desde que eu tivesse certeza de que alguém estava lendo. Maior prazer em saber se as pessoas se entusiasmaram tanto quanto eu com a leitura.

    Mas com o passar do tempo e muitos livros perdidos, agora eu só empresto mesmo pra quem eu sei o nome, endereço e cpf! rsrsrs Mas antes eu tento convencer a pessoa a comprar! hehehe!

    Tenho um livro meio sacana, A Casa dos Budas Ditosos, de João Ubaldo Ribeiro, que passou na mão de todas na turma da faculdade, digo todas mesmo. Isso foi em 2003, e quando foi o nosso encontro de Natal do ano passado, quando eu já dava o livro como perdido, uma amiga me devolveu! Eu nem lembrava mais do dito cujo, e ele voltou pra minha casa, que ele ainda nem conhecia!

    Aos pouquinhos estou remontando minha biblioteca, e acho o máximo os diferentes tipos de literatura que vou adotando com o passar dos anos. O bom de tê-los comigo é ver como os livros vão se modificando junto comigo. E é sempre bom uma releitura dos mesmos, sempre nos revelando um olhar diferente.

    Abraço em você, queridona! E feliz dia dos professores!

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